terça-feira, 28 de setembro de 2010

Do outro lado da ponte

[Trilha com Nelly Furtado, aqui.]

Eu sei se um texto ficou bom ou não, na proporção exata em que ele me doeu pra escrever. Esquisito? Em muitos e muitos textos, eu choro. Escrevo como uma espécie de terapia, pra sentir primeiro aquilo que nem quero externar pro mundo, mas sai porque não podia ficar mais contido.

Isso é meio triste. Porque na felicidade a poeticidade também existe, mas é estranho, bom, mas diferente, porque às vezes parece que falta alguma coisa ruim... Texto de gente maluca.


Vasculhando nas memórias algum assunto, encontrei a carta que eu rabisquei na capa de um livro: “pra você”, era o destinatário. Não sei por que não mandei, talvez não quisesse passar a limpo o passado. Em letras garrafais eu te dizia: “acertei o caminho não porque segui as setas, mas porque desrespeitei todas as placas de aviso”. E achei curioso eu usar essa metáfora sem nem ao certo saber o que queria te dizer com isto. E depois de repousadas aquelas palavras eu percebi quanta coisa eu escrevi pra você, querendo dizer pra mim. Porque eu jamais chegaria aonde cheguei se só andasse em linha reta. Tive que voltar atrás, andar em círculos, perder dias, perder o rumo, perder a paciência e me exaurir em tentativas aparentemente inúteis pra encontrar um quase endereço, uma provável ponte: a entrada do encontro.Você tão ocupado com seus mapas, tão equipado com sua bússola, demorou tanto, fez sinais de fumaça e não veio. Você simplesmente não veio. Mas me ensinou a intuir caminhos certos, a confiar nos passos, a desconfiar dos atalhos. Porque eu estava do outro lado e só. Sem amparo. Mas caminhava. E você estava absolutamente equipado com seu peso. E impedido de andar por seus medos.

*

Os grifos são meus

Sobre Gols e Ferraris


[Texto do livro "O homem ideal e outras conversas", muito bom]






O sonho de quase todo homem é ter uma ferrari vermelha. Linda, imponente, fala por si mesma sem precisar dizer coisa alguma, que é muito, muito, muito mais do que um carro. É uma Ferrari. Vermelha.

Há homens que tiram a sorte grande (por esforço, sorte ou merecimento) e conseguem a tal da Ferrari vermelha. Só que a manutenção do carro é muito alta, a atenção a ser dedicada ao carro é infinitamente maior e ele descobre que simplesmente não dá conta de ter uma Ferrari vermelha. O ônus é muito alto para reles mortais.

O que ele faz?

Abre mão da Ferrari, arruma um golzinho duas portas
e segue mais ou menos feliz lembrando que um dia teve a chance de possuir o carro dos sonhos.
Uma Ferrari. Vermelha.

(Risos.)



*


Em tempo: Meninas, se um homem está achando que você é mulher demais pra ele é porque SEGURAMENTE você é. Vamos abandonar o complexo de Eva e parar de sentir culpa porque no fim das contas ele gosta mesmo é de Gol... risos. O Gol é um carro confortável e bonitinho. Viva a felicidade das pessoas! Cada um com seu cada um. A "culpa" não é sua, se você nasceu uma Ferrari vermelha.

(Re)lutâncias



E às vezes você sabe qual é a coisa certa e qual a errada, mas vai lá e continua fazendo tudo igual. É que você sabe que existe o intervalo entre o que você quer e o que outro pode dar. Mas é que às vezes o passo gigantesco de um é pouco, menor, incipiente ou qualquer outra coisa esquisita que possa dizer qualquer outra palavra.


Alma 1: ele gosta de mim, mas tem um jeito estranho, q eu não gosto
Alma 2: ahhh, mas cada um tem seu jeito de amar, resta saber se o jeito dele é suficiente para vc
Alma 1: não é.


As pessoas são como são. Ou a gente aceita e prossegue com elas, ou não aceita e prossegue sem elas. Por que é tão difícil agir assim? É que às vezes você sabe qual é a coisa certa e qual a errada, mas vai lá e continua fazendo tudo igual. E você sabe que existe o intervalo entre o que você quer e o que outro pode dar...

É que às vezes a gente sonha, quer mais. E não sabe se isso vem da fantasia que aprendeu nas novelas ou de um desejo bobo e quase incontaminado de que um dia também virá amparada de príncipe(s).

Queria aconselhar, mas eu não sei nem pra mim... Talvez eu devesse dizer "abandone o campo antes do eclodir da tormenta", mas é que às vezes eu mesma quero banhos de chuva... e imploro furacões, já que eles também moram dentro da gente.

(Então paguemos os riscos. Com o sim ou com o não.)

... o desequilíbrio faz parte do equilíbrio. Ilustro melhor o que digo ao comparar com o equilibrista de circo. Ele chega de uma ponta até a outra de maneira "perfeita", ou seja, sem cair. Mas durante o percurso ele desequilibra e parece que irá cair algumas vezes. Com serenidade e, muitas vezes, sorriso no rosto, se reequilibra e não cai. O desequilíbrio faz parte do equilíbrio... (Aceitar esse fato transformou a minha vida!)

Shakespeare

"Ninguém ama alguém que não demonstra o seu amor".
Puta que o pariu. Que merda.

Fútil?





"E se tudo que conhecemos for uma ilusão, e nada existe de verdade?
Nesse caso, acho que paguei demais pelo tapete da sala."
-- Woody Allen, 'Without Feathers

Manoel de Barros


A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou -- eu não aceito. Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas.